Maria Cláudia de Lima
Medeiros
O desenvolvimento de novas tecnologias sempre gerou questionamentos a respeito das transformações que provocariam na sociedade de um modo geral. Considerando o caso das artes, a cada nova tecnologia, surgem pensamentos antagônicos que ora imaginam o novo universo como possibilidades de criação estética, ora decretam o seu fim. No cinema, por exemplo, quando surgiu a tecnologia que permitiu a sonorização dos filmes, não foram poucas as vozes que reagiram negativamente decretando o seu fim. Entretanto, os sons foram incorporados e isso não significou o fim do cinema. Discussão semelhante se impõe com o impacto das tecnologias digitais sobre a arte contemporânea, em particular a literatura. Algumas vozes mais exaltadas preconizaram o fim do livro impresso e, por conseguinte, o fim da literatura, como nos indica Roger Chartier (1999:152-153) em seus estudos sobre os destinos do livro na era da Internet. Ainda é cedo para afirmações definitivas, mas é fato que a produção cultural contemporânea cada vez mais vem se organizando de forma imagética. As palavras, durante muito tempo detentoras quase absolutas do poder de divulgação de informações e de produção de conhecimento, cada vez mais cedem espaço para imagens de todos os tipos, de modo que nos é possível afirmar que todo o aparato tecnológico que possibilitou essa mudança de percepção do mundo, interferiu também nas maneiras de representá-lo. Fotografia, cinema, televisão e, mais contemporaneamente, computadores contribuíram para essa mudança de paradigma e não são poucos os estudos que tentam dar conta do impacto dessas tecnologias sobre o discurso narrativo. Ítalo Calvino (1990), aponta a multiplicidade como uma das principais características da nova literatura; Umberto Eco (1997), aponta aproximações entre a teoria da informação e a estética das narrativas literárias contemporâneas e há muito mais. Cumpre-nos dizer, portanto, que o hipertexto digital instaura novos elementos como a interatividade, o “hibridismo” de linguagens , a virtualidade, o estabelecimento de uma nova lógica organizacional que aproxima a arte da ciência (sobretudo matemática fractal, da teoria do caos e da catástrofe), além de redimensionar conceitos como de autoria e de recepção. É mister discutir até que ponto esses elementos estão motivando transformações no texto narrativo literário impresso e como se dá esse diálogo considerando-se os limites que o suporte impõe.
* Artigo publicado na Revista do Gel 2004 – ISSN 1413 0939.
Maria
Cláudia de Lima Medeiros é Mestre em Educação, Arte de História da Cultura e professora de Língua
Portuguesa no Colégio Mário de Andrade.