AS CRIANÇAS DA GUERRA

Por Luiza Helena Santos – Filosofia

 

As crianças da guerra,

Os filhos da guerra

Tem fantasias enxutas.

Sentem.

Mas, sentem...

Sentem coisas que

As crianças na paz,

Talvez

não alcancem.

As crianças da guerra

Também

encantam-se,

Mas, com uma dedicação

Imediata!

Vivem, estas crianças,

No presente,

não conhecem

outra dimensão temporal.

 

Os filhos da guerra,

Reivindicam o essencial !

Não elocubram,

Não sofisticam,

Não se iludem

Com o supérfluo

O seu querer é essencial.

Mas, não são rústicas

As crianças da guerra,

Porque suas percepções

são agudas, e

elas

movimentam-se

no presente

com um misto de

instinto e

supra-sentido.

São pragmáticas e dedicadas

As crianças da guerra,

Porque conhecem a vacuidade

Das promessas e a

Gratuidade da tragédia.

Sonham também,

os filhos da guerra,

Mas em sonos de pálpebras

Semicerradas e ouvidos

Alertas!

Os sonhos

das crianças da guerra

são sonhos de criança,

como de qualquer criança,

Mas trazem em si

Energia e empenho

Dos sonhos possíveis.

São sonhos no presente,

Sonhos da realidade.

 

Os filhos da guerra

não dizem:

Olhe, uma formiga!

Mas, sim:

Olhe a formiga!

Pois, para as

Crianças da guerra

As coisas são

Absolutas, e

Valem individualmente

E no agora.

Para essas crianças

O valor das coisas,

Está em existirem,

As coisas mesmas

E as crianças.

 

Mas, naquilo que são

E não sabem,

As crianças da guerra

São ícones do devir,

Símbolos do que vem

Porque resistem, sobrevivem,

Ainda que não compreendam

Ainda que não saibam

Que são vitais

à humanidade inteira

Ainda que não

Se comovam

Os adultos e

Os povos que pensam

Estarem à salvo

E no armistício

Essas crianças

São o prenúncio,

Da existência da

Verdadeira paz.

 

09/12/96